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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Quando a gente tiver uma familia...

Daqui a alguns bons anos, quando todas nós tivermos crescidas, vamos sentar no jardim de algum lugar , estender nossos tecidos e vamos olhar ao redor tudo que a gente sonhava aos 20 e bons anos.
Vamos ter nos braços aqueles filhotes sorrindo e nos dando alegria com todo o qualquer gesto.
Talvez uma de nós já tenha filhos maiores, que vão estar correndo e cantando, mostrando como é belo o milagre da vida.
Por trás de tudo isso, teremos um bom marido ou namorado. De preferência, que esse seja um dos nossos grandes amores, para que possamos sentir aquele frio na barriga toda vez que olharmos seu rosto pela manhã.
Nesse dia, esses belos homens vão fumar e conversar deitados no chão enquanto bebem um vinho e nos olham mais apaixonados do que ontem.
Nós estaremos mais felizes a cada segundo.
Realizadas, não falaremos de trabalho.
Vamos falar e viver mais uma boa página de uma vida de amizade e amor construído.
Vamos exibir nossos cabelos, nossos sorrisos e nossas tatuagens como a tempos atrás.
Talvez uma de nós ainda esteja com um bebê na barriga, transbordando beleza e luz.
Talvez a gente comece a planejar uma viagem. Ou vamos rir de uma viagem inesquecivel.
Quem sabe, uma de nós tenha uma novidade incrível para contar.
Uma hora, o vinho vai deixar seca a nossa taça. O sono vai vencer nossas crianças e então seremos nós. Nosso infinito amor, somado ao amor puro e verdadeiro que vamos receber do Rei que vai estar vivendo ao nosso lado.
Se tudo der certo, vamos deitar na grama e rir de todos os bons momentos vividos.
E vamos tentar buscar o inicio dessa historia toda.
Procurar o momento em que "tudo" virou "isso".
Vamos tentar achar o ponto da mudança e vamos sentir uma nostalgia barroca chegar...
A tarde vai começar a cair.
Com certeza ainda vamos ter aquele nosso abraço...
Aquele céu sobre nós... A terra sob nossos pés...
Para nos fazer acreditar que é de verdade.
E que assim seja!

domingo, 5 de junho de 2011

Principe, você ainda me ouve?!

O dia amanheceu tão lindo Príncipe.
Talvez seja uma boa manhã para sairmos por ai...
As nuvens acabaram de deixar o céu totalmente azul.
Vem comigo, Príncipe.
Ver o jardim que continua lindo, as crianças que correm inocentes.
As mães a alimentar seus filhotes...
A agua ainda jorra do velho chafariz, sabia?
Uma lastima você não responder ao meu chamado.
O café já não está tão quente.
Apesar do Sol, a frio apareceu.
As famílias já não parecem tão felizes.
As flores não tem o mesmo perfume...
Todos os lugares permanecem cheios, mas vazios de você.
Aqui ao meu lado, um espaço nulo.
Que poderia ser um espaço seu...
Ah, se você ouvisse e se rendesse ao meu chamado.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

E o AMOR comeu...

OS TRÊS MAL - AMADOS (Joaquim Cabral de Melo Neto)
♥ O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita.
O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais,
meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido.
Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso. O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam.
Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta.
Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
♥ As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.